Postagens

*Nando*

O cabelo ainda balançava, apesar de ele ter acabado de passar uma cera, que ele dizia que era para manter o penteado no lugar, como a vida dele parecia estar, toda perfeita, embrulhada para qualquer situação, encontro, desencontro ou coincidência. O perfurme tinha um cheiro misturado, com o cheiro da loção de barba, do hidratante corporal e do cigarro que ele acabara de apagar. Os olhos ainda eram de crianças, fixos, mas pedintes, como se esperasse por algo, que ele não ousava dizer. Falou do carro novo, que precisava comprar, dos 20 atendimentos que realizou no trabalho, falou da fome, comeu as pressas, a olhou as pressas e a deixou divagar (sobre assuntos bobos pra ele e importantes pra ela). Enquanto ela falava, sobre ele, ela e a intersecção que parecia não haver, ele olhava a TV. Passava um filme idiota, mas o cara andando na bicicleta, prestes a colidir com o caminhão, parecia mais importante que aquele breve romance que já havia começado, meio atrapalhado, meio descompassado e s...

O amor acaba (...)

CRÔNICA DE PAULO MENDES CAMPOS, PUBLICADA EM 1964. O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como ...

*Alice*

(...) A dor é fisica, ela percorre pelos braços e vai até as pernas, o coração palpita, antecipa um medo, mas é difícil identificar o gatilho (o que desperta este medo), ela está sentada, em um apartamento silencioso, em um lugar, que dizem ser um dos mais seguros do mundo, há luz solar, há silêncio, há PAZ, mas dentro do corpo e da mente, não há um espaço vazio, é impossível respirar. Tem 31 anos, sente isso desde os 14 anos, sempre pensou que fosse AMOR, mas descobriu, depois de um longo processo psicoterapêutico, que esse sentimento está tão longe do AMOR, quanto os homens (com quem ela teve fortes conexões) estão longe da Sanidade Mental, em certo ponto, eles quase a enlouqueceram e no limite do que sempre lhe restava de sanidade, ela duvidava de si mesma, dos seus pensamentos, do que sentia e fazia. Era como se a mente não combinasse com seu corpo, e o coração estivesse desconectado dos dois. Existiam sempre, três pessoas nela: uma que sentia dor física, outra que sentia dor em...